Hoje fui ao cinema assistir ao filme "Abraços partidos". É um filme meio embaralhado, no sentido de que muitas cenas são jogadas do nada, como o filme que ele escreve dentro da história: "Garotas e malas" que as cenas ficaram meio jogadas, sem ter um contexto. É como foi a vida dele, as coisas parecem fragmentadas, sem elos para serem compreendidas, foi preciso fazer este elo para que o filme fosse reeditado e compreendido por aquele que fosse assistir "Garotas e malas". Através de um acidente sua amada foi morta e ele ficou cego, teve que encarar o mundo sem enxergá - lo, através da visão, porque o olhar está para além da visão, da retina. O olhar está no objeto "a", aquilo que é inapreensível. Como a arte é enxergada, senão pela lente daquele que o vê, mas quem disse que o foco da minha lente é igual ao foco do outro? É... A arte é para ser sentida, é para ser vista com sensações, como o olhar do inconsciente. Como tudo é a posteriori agora parei para pensar no "pacto" inconsciente que havia nesta trama. Ele possuía dois nomes, o diretor que tinha que ser poderoso e o homem do mundo real, com outro nome, com suas limitações, inclusive a cegueira, mas quem disse que um está separado do outro? Quem lida com arte, geralmente possui seu nome e o nome artístico. Acho que é uma forma de ver de fora o personagem e talvez achar que está tão distante de si. Ela também possuía dois nomes, ela enquanto mulher que trabalha, filha e enquanto garota de programa. A trama mostra a obsessão de seu marido por ela, o quanto não importa ficar com ela mesmo que pela metade, sem o amor, até derrubar pela escada e ela se machucar toda e precisar depender dele, mesmo assim não ocorre a dependência que ele tem dela. Ela e o escritor vivem uma relação onde puderam ser eles de uma certa forma, ele pode assumir o seu nome, o qual nasceu e cresceu, antes de se tornar escritor e ela também. Uma trama de traições e segredos que duraram 14 anos, até que pudessem ser ditos, nós sabemos que em psicanálise é preciso ser colocado em palavras o que nos incomoda para que possamos dar algum sentido, o que não é falado pode vir em forma de sintoma, neste caso todos apagam o passado e fingem está bem, o nó (abraço) é partido, é preciso reatar o nó com cuidado, reatar nó trás lembranças mas pode curar cicatrizes. Os abraços foram partidos no último abraço antes do acidente deles. E como um filme dentro do outro parece horas está fora de foco, nos convidando a nos sentirmos desatados, sem uma ponta ligar a outra para que possa fazer o nó, vamos interpretando e viajando no mundo encantado de Almodôvar e cada um vai atando o seu nó como acha melhor, bem apertado, frouxo, com laço, é de cada um. A arte é subjetiva. O cinema, as cores, os atores, a fotografia, os relacionamentos, o ser humano, a psicanálise, interpretar são formas de arte. Vejo com os olhos da alma e não com os olhos do corpo. Esta foi a minha leitura sobre o filme e a sua?
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